P2V-5 Neptunes da Lockheed no Brasil

História e Desenvolvimento.

A origem do Neptune, remonta as aeronaves de patrulha  da Lockheed PV-1 Ventura e PV-2 Harpoon, que representaram grande parcela  do esforço aliado no combate a guerra antissubmarino, ocorre porém que outros modelos era oriundos de projetos de aeronaves civis ou bombardeiros estratégicos não sendo originalmente concebidos para esta finalidade, e estas adaptações foram necessárias em função da falta de tempo para o desenvolvimento de novos modelos em detrimento a produção em massa dos demais modelos.

Vislumbrando ameaças futuras na guerra antissubmarino, mais notadamente em missões de longo alcance, a equipe de projeto da Lockheed liderada pelo engenheiro John B. Wassal iniciou em 1941 o desenvolvimento de uma nova aeronave especializada, porém o maior envolvimento da empresa no esforço de guerra limitaria em muito a velocidades deste novo projeto. Em 1944 o comando da aviação naval da Marinha Americana emitiu requisitos para a concepção de uma nova aeronave e patrulha, e como a Lockheed já havia se adiantado a seus concorrente, viria a apresentar seu projeto em tempo recorde, obtendo assim a encomenda para  produção de dois protótipos designados XP2V-1, com primeiro voo ocorrendo em 17 de maio de 1945, e após avaliações preliminares e ensaios de voo, a aeronave receberia os primeiros contratos para produção em série a partir de 1946, e totalizariam 1.051 células de diversas versões até 1957, sendo produzidos também sob licenças no Canada e Japão.
A sua concepção era a de um bimotor triciclo de grande raio de ação, com capacidade e operação em qualquer tempo, sendo equipado com dois potentes motores radias e grande capacidade de transporte de armamento sob as asas ou em bomb bay, dispunha ainda de uma torreta dorsal com duas metralhadoras para autodefesa. O Neptune fora projetado para ser uma aeronave de baixo custo de operação, com a incorporação de inovações que reduziam o tempo de manutenção em terra, aumentando a disponibilidade das células. 

A primeira versão operacional o P2V-1 entrou em operação na US Navy (Marinha Americana) em 1947 e estava equipada com dois motores Wright R-3350-8 de 1.700 hp cada, seu armamento defensivo era composto por três torretas de metralhadoras .50, sendo uma dorsal, traseira e uma frontal. A segunda versão P2V-2 passava a contar com motores mais potentes Wright R-3350-24W com 2.800 hp e nesta versão a torreta frontal seria substituída por dois canhoes fixos de 20 mm, à medida que a US Navy ganhava experiencia no emprego do modelo, novas versões surgiam da necessidade de melhoria do projeto, e a o P2V-4 passou a dispor do novo radar ASW AN/APS-20 alojado sob a fuselagem, receberia um sistema de sonoboias e também um holofote na ponta de um dos tanques suplementares das asas. Em 1951 surgia a variante P2V-5 que seria a versão mais produzida do Neptune, e trazia um novo nariz envidraçado para o observador com a remoção do armamento frontal, a torreta de metralhadoras da cauda também foi removida visando a instalação do equipamento de Detecção de Anomalias Magnéticas (MAD), também houve significativo aumento na capacidade de transporte de combustível dos tanques das pontas das asas e a colocação de um radar NA/APS-8 na ponta de um destes tanques.
Sua carreira militar registra participações em combate nas guerras da Coreia e Vietnã sendo empregados em missões de patrulha, esclarecimento marítimo, e acima de tudo foram ferramenta fundamental no monitoramento de submarinos soviéticos e na ativação de missões ELINT, durante o longo período da Guerra Fria, registrando ainda abates provocados por aeronaves de caça chinesas e soviéticas. Com o advento da entrada em operação dos novos quadrimotores Lockheed P-3 Orion os P2V começaram a ser destinados a missões de inteligência a serviço da CIA (Central de Inteligência Americana) sendo convertidos em versões para guerra eletrônica (ECM), controle e lançamentos de drones, telemetria e ataque terrestre para qualquer tempo, sendo esta versão designada como APH-2 equipada com sensores de FLIR e TV e armada com lançadores de granadas, bombas de napalm e metralhadoras miniguns.

Além da Marinha Americana e a CIA, os Neptune estiveram em uso pela Holanda, Austrália, Portugal, Canadá, Japão, Reino Unido, França, Brasil, Republica da China  e Argentina onde desempenharam no conflito das Falklands Malvinas em 1982 as últimas missões de patrulhamento marítimo do modelo, quando foram empregados para identificar e acompanhar os movimentos da Força Tarefa Britânica , cabe ainda aos Neptune da Armada Argentina o distinto papel de operarem na busca e vetorização de alvos para os ataques realizados pelos Dassault Super Étendard com misseis ar mar Exocet. Algumas células são mantidas em operação até os dias atuais por empresa civis especializadas em combate a incêndios nos Estados Unidos e Europa.

Emprego no Brasil. 


Logo após o término da Segunda Guerra Mundial a Força Aérea Brasileira dispunha de um bom número de aeronaves de aeronaves de patrulha que poderiam ser consideradas relativamente moderna, mas a obsolescência dos sistemas embarcados rapidamente viria a afligir a frota brasileira, face as inovações tecnológicas implementas nos primeiros anos da década de 1950. De todo o acervo da FAB apenas o PV-2 Harpoon ainda dispunha de alguma capacidade combativa neste novo cenário, porém em 1956 os mesmos seriam desativados devido a problemas de fornecimento de peças de reposição, restando apenas poucas células dos obsoletos PV-1 Ventura do 1º/7º GAv para realizar a tarefa de patrulhamento do mar territorial brasileiro. Visando solucionar esta necessidade em 1957 o Ministério da Aeronáutica fazendo uso dos termos do Programa de Assistência Militar (PAM), negociou a aquisição 14 células usadas do modelo Lockheed P2V Neptune que foram  produzidas e entregues em 1951 á US Navy, que os operou até 1953, quando foram transferidos para Inglaterra para o emprego junto ao Comando Costeiro da RAF ficando em uso até fins de 1957 quando foram devolvidos e estocados na Davis Monthain AFB, posteriormente as células foram revisadas e preparadas pela empresa Grand Central Aircraft Corporation de Fresno na Califórnia, para assim serem transferidos a FAB entre 1958 e 1959.

As aeronaves adquiridas eram do modelo P2V-5 e estavam equipadas com sofisticados sistemas eletrônicos dedicados a guerra ASW, entre eles o radar de longo alcance APS-20, sistema de contra medidas eletrônicas CME, radar de precisão APS-8, equipamento Julie/Jezebel, MAD ASQ-8 (detector de anomalias magnéticas) e um poderoso farol de busca noturna de 80 milhões de lumiens instalado no tanque da asa esquerda. Tais inovações elevariam a capacidade de patrulha e combate antissubmarino, gerando a necessidade de um amplo treinamento por parte das equipagens brasileiras, que seria efetivado junto a base aeronaval de Jacksonville na Florida para adaptação e solo na aeronave fazendo uso dos modelos P2V-2, P2V-3 e P2V-4 e na base naval de Norfolk na Virginia onde foram ministradas no modelo P2V-5 as técnicas de guerra antissubmarino.
Já ostentando as marcações nacionais os cinco primeiros P2V-5 agora designado P-15, iniciaram em 15 de dezembro de 1958 o primeiro translado das instalações da Grand Central na cidade de Fresno na Califórnia, para o Brasil, estes translados  se concluíram até março do ano seguinte quando as quatorze aeronaves foram incorporadas ao 1º/7º Grupo e Aviação “Esquadrão Orungan” Quando do seu recebimento na Base Aérea de Salvador, a mesma necessitou de profundas alterações em infraestrutura  para operação (incluindo pistas de pouso adequadas) e manutenção básica da grande aeronave, principalmente no que tange a laboratórios para testes e calibração dos sistemas eletrônicos, com este processo se estendendo até o ano de 1961. As manutenções em âmbito IRAN (Inspection And Repair as Necessary) eram realizadas pelo Parque de Aeronáutica de São Paulo (PASP), contando ainda com o apoio  do Centro de Manutenção da Varig que detinha vasta experiência na manutenção dos motores que eram os mesmo empregados em sua frota de aeronaves de transporte de passageiros Lockheed Constelation. Apesar da celulas serem fornecidas originalmente com a torreta dorsal de metralhadoras, a mesma foi retirada durante o transcorrer das primeiras revisões em âmbito e parque.

Já plenamente operacionais os P-15 matriculados FAB 7000 á 7013, foram encarregados do patrulhamento da faixa de 200 milhas do mar territorial, a fim de identificar e verificar todas as embarcações nessa aérea. Estas missões eram divididas em duas operações, norte e sul abrangendo uma aérea de 2.780.000 km2, e seu procedimento compreendia em despachar as aeronaves mar adentro, realizando o esclarecimento e o acompanhamento de possíveis embarcações irregulares desde a costa baiana, margeando a região litorânea brasileira, com escalas técnicas nas bases aéreas de Santa Cruz ou Canoas ao sul e Belém ou Natal ao norte. Estas missões de longa duração proporcionaram o estabelecimento de recordes de permanência em voo de uma aeronave militar brasileira, englobando em 1961 e 1967 missões com 24h35m e 25h15m respectivamente. Dentre estas missões podemos citar uma especifica ocorrida em 1972, quando um P-15 detectou e acompanhou um navio espião soviético, próximo ao Atol das Rocas, em aguas territoriais brasileiras, que suspeitava se estar monitorando as atividades aeroespaciais em curso na Base de Lançamento da Barreira do Inferno. Após algumas passagens baixas sobre a embarcação, os soviéticos decidiram abortar sua missão e abandonar a área.
No início da década de 1970 restavam apenas dez células operacionais, e sua disponibilidade em função de problemas no fluxo de peças de reposição começava a atingir patamares preocupantes, levando a FAB a canibalizar algumas aeronaves, estes processos levaram o comando da aeronáutica a decidir a retirada de operação dos P-15 Neptune, envolvendo um processo gradual que se encerraria em setembro de 1976 em uma cerimônia de despedida na Base Aérea de Salvador. Apesar de seu sucessor, o P-95 Bandeirante Patrulha apresentar sistemas eletrônicos atualizados, a nova aeronave não dispunha da mesma autonomia ou capacidade de transporte e operação de armamentos dedicados a guerra antissubmarino, lacuna esta que só seria preenchida a partir de 2011 com a incorporação dos modernizados  Lockheed P-3AM Orion.

Em escala 

Para representarmos O P-15 Neptune  “FAB "7011“, empregamos o  antigo kit da Hasegawa, na escala 1/72, vale lembrar que este modelo originalmente este modelo apresenta a versão P2V-7, para adequarmos a P2V-5 operado pela Força Aérea Brasileira devemos proceder a alteração dos tanques suplementares instalados nas pontas das asas, realizados esta conversão em scratch empregando como base tanques de napalm, presentes no kit do P-47 Thunderbolt da Academy/HTC na escala 1/48, devemos também eliminar a torreta dorsal de metralhadoras .50. Fizemos uso de decais impressos pela FCM, presentes no Set 72/09.
O esquema de cores (FS) descrito abaixo representa o padrão de pintura da Marinha Americana Midnight Blue, com qual as aeronaves brasileiras foram pintadas, a partir de 1968 um segundo esquema foi adotado, na qual as superfícies dorsais da fuselagem receberam a aplicação de tinta branca no intuito de atenuar os efeitos do calor intenso do litoral nordestino, em 1971 um terceiro e último padrão foi implementado perdurando até sua desativação.




Bibliografia :

- A Saga do Netuno P-15 Aparecido Camazano Alamino  - Revista Força Aérea Nº 9
- Lockheed P2V Neptune-  Wikipedia - https://en.wikipedia.org/wiki/Lockheed_P-2_Neptune
- Aeronaves Militares Brasileiras 1916 – 2015 – Jackson Flores